NBR 5419:2026 atualizada: o que muda para quem projeta proteção contra descargas em média tensão
A ABNT publicou, em 10 de março de 2026, a nova edição da NBR 5419, a norma que rege a Proteção contra Descargas Atmosféricas (PDA) no Brasil, termo que agora engloba tanto o SPDA (a proteção física da estrutura) quanto as MPS, as Medidas de Proteção contra Surtos dos sistemas eletroeletrônicos. A edição cancela e substitui integralmente a de 2015 e acompanha a terceira edição da IEC 62305.
O prazo importa para quem está com projeto em andamento: os requisitos da nova edição passam a ser exigíveis seis meses após a publicação, e projetos protocolados dentro do período de transição ainda podem seguir a edição de 2015. Ou seja, o corte cai exatamente agora, entre o fim de setembro e outubro de 2026, quando começa a temporada de chuvas e descargas atmosféricas e engenheiros e especificadores voltam a olhar para esse tema antes de fechar um projeto.
Este artigo resume o que muda na prática e o que revisar em projetos em andamento.
O índice Ng foi recalculado com dados de satélite
A mudança que mais mexe com projeto em andamento é a atualização do índice Ng, a densidade de descargas atmosféricas usada para calcular o risco de uma estrutura. O novo mapeamento vem do sensor óptico de satélite da NASA calibrado com a rede de sensores de solo brasileira, com resolução por município, substituindo mapas mais genéricos. O Anexo F, que traz esses mapas e a tabela de Ng por município, passou a ser normativo: a norma agora determina que esses valores são a fonte a ser usada, e não dados de outras origens.
Na prática, o nível de risco calculado para uma mesma estrutura pode mudar, para cima ou para baixo, dependendo da região onde ela está instalada, e a análise de risco (Parte 2 da norma) precisa ser refeita com os novos parâmetros.
Um critério novo: a frequência de danos (F)
A inovação conceitual da revisão é a frequência de danos, indicada como F, que passa a conviver com o risco R já usado na edição anterior. Em vez de avaliar só a probabilidade ponderada de perda, o projetista passa a verificar quantas vezes por ano se admite que a estrutura sofra dano, com limite mais rigoroso para sistemas críticos. É um critério autônomo: uma estrutura pode ficar dentro do risco tolerável e ainda assim reprovar pela frequência de danos, o que obriga a rever a proteção projetada.
Classe de SPDA vira Nível de Proteção (NP)
A terminologia muda: o conceito de "classe de SPDA" dá lugar ao Nível de Proteção (NP), usado para definir os requisitos de dimensionamento do sistema. A correspondência é direta, a Classe I vira NP I e assim por diante, e os valores numéricos dos requisitos foram mantidos. O que muda de verdade não é a tabela, é qual nível a estrutura passa a exigir depois de refeita a análise de risco com o Ng novo.
Reclassificação de nível: o efeito prático no telhado
É aqui que a conta aparece na obra. Os requisitos de malha de captação sempre variaram por nível de proteção, de 5x5 metros no nível mais exigente até 20x20 metros no menos exigente, e esses valores não mudaram. O que muda é o nível: com o Ng recalculado, estruturas que antes se enquadravam em um nível mais brando podem passar a exigir um nível superior, e aí a malha de captação fica mais densa, com mais pontos de captação e mais condutores horizontais.
Para o orçamento, o efeito é o mesmo de uma mudança de tabela: uma estrutura reclassificada exige mais material e mais mão de obra do que a especificação feita sob a norma anterior. A diferença é onde procurar a causa, na análise de risco refeita, não numa exigência nova de malha.
Aterramento: eficácia agora é medida por continuidade elétrica
A revisão muda como se avalia se um aterramento está funcionando. A Parte 3 diz de forma expressa que não é necessária a medição de resistência de aterramento para verificar a eficácia do SPDA. O que passa a valer é a continuidade elétrica do sistema, com procedimentos de ensaio detalhados em anexo normativo.
Para quem faz manutenção preventiva de SPDA, isso reescreve o protocolo de inspeção: o laudo deixa de girar em torno de um valor de ohms medido no terra e passa a documentar a continuidade de toda a malha, das descidas às conexões de equipotencialização.
Aterramento único: a equipotencialização deixa de ser opcional
Este é o ponto central para quem projeta em média tensão: a integração do SPDA com o aterramento funcional da instalação elétrica passa a ser mandatória. O eletrodo de aterramento do SPDA deve integrar a equipotencialização principal da instalação, e não constituir um sistema à parte.
Na prática, isso encerra a figura do aterramento isolado: proteção contra descargas atmosféricas e aterramento da instalação de potência passam a ser tratados no mesmo projeto e no mesmo cálculo, o que é decisivo em instalações de média tensão conectadas à rede da concessionária, justamente onde uma diferença de potencial entre malhas separadas encontra equipamento eletrônico sensível.
Materiais: o cabo de aço cobreado ganha equivalência com o cobre
Do lado dos materiais, a novidade é o reconhecimento formal do cabo de aço cobreado (bimetálico aço-cobre) como condutor, com seção mínima equiparada à do cobre puro, uma mudança que reduz custo sem abrir mão da condutividade e da resistência mecânica, especialmente relevante num país de clima agressivo como o Brasil, com maior durabilidade em ambientes com alta incidência de corrosão. A tabela de materiais da Parte 3 foi atualizada para incluir as normas brasileiras específicas desse condutor.
SPDA não substitui, e também não é substituído por, proteção contra arco interno
Vale separar dois riscos que às vezes se confundem no projeto: o SPDA protege a estrutura contra descargas atmosféricas externas. Já a proteção contra arco elétrico interno, o tipo de falha que pode ocorrer dentro de um painel ou cubículo, por curto-circuito ou falha de isolação, é outra camada, tratada pela análise de energia incidente que a NR-10 atualizada também passou a exigir (o estudo de arco elétrico baseado nas correntes de curto-circuito do sistema, usado para especificar corretamente EPIs e tempos de atuação da proteção). Muitas instalações de média tensão vêm complementando essa resposta com o relé de proteção contra arco interno, que reduz o tempo de atuação diante de uma falha e protege diretamente quem está na frente do painel no pior cenário. São duas camadas de proteção que compõem o mesmo raciocínio: reduzir o tempo entre a falha e a resposta, e proteger tanto a operação quanto as pessoas.
O que revisar agora, na prática
Para quem tem um projeto de média tensão em andamento ou em fase de especificação:
- Conferir a data de protocolo do projeto, porque isso define se ele pode seguir a edição de 2015 ou já cai nos requisitos novos
- Refazer a análise de risco (Parte 2) com o novo índice Ng da região da obra, tirado do anexo normativo
- Verificar também a frequência de danos (F), que pode reprovar uma solução aprovada pelo risco tolerável
- Reclassificar o sistema pelo Nível de Proteção (NP), não mais por classe de SPDA, e revisar a malha de captação se o nível subiu
- Verificar se o eletrodo de aterramento do SPDA integra a equipotencialização principal da instalação, sem malha isolada
- Trocar o protocolo de inspeção do aterramento, de medição de resistência para ensaio de continuidade
- Avaliar o cabo de aço cobreado como alternativa de custo no trecho de descida e malha, mantendo a seção equivalente ao cobre
Projetos já instalados sob a versão anterior da norma não têm obrigação automática de adequação, normas técnicas brasileiras não têm efeito retroativo automático. Mas a reavaliação é recomendável sempre que houver ampliação da estrutura, instalação de novos sistemas eletrônicos críticos, ou quando a análise de risco atualizada indicar que a proteção projetada anteriormente pode não ser mais suficiente para o risco real da região.
Como integradora agnóstica em média tensão, a Trifásica Elétrica trata a proteção contra descargas atmosféricas como parte do mesmo projeto de continuidade operacional que envolve disjuntores, cubículos, aterramento e proteção contra arco interno, não como um item isolado de conformidade.
Limites deste texto
Os pontos descritos aqui foram levantados a partir de material técnico público sobre a nova edição, incluindo análise comparativa assinada por perito judicial, e não substituem a leitura do texto normativo da ABNT, que é o documento que vale. Os prazos de transição dependem da data de protocolo de cada projeto e devem ser conferidos caso a caso. Nada aqui dispensa a análise de risco da estrutura específica nem a responsabilidade técnica do projetista.
Preguntas frecuentes
A NBR 5419:2026 obriga a refazer projetos de SPDA já instalados?+
Não automaticamente. Normas técnicas não têm efeito retroativo no Brasil. Mas a reavaliação passa a ser recomendável quando há ampliação da estrutura, novos sistemas eletrônicos críticos ou quando o novo índice Ng da região indica um risco diferente do calculado originalmente, e seguradoras e perícias tendem a usar a norma vigente como referência técnica.
Até quando dá para entregar projeto pela norma antiga?+
Os requisitos da nova edição passam a ser exigíveis seis meses após a publicação de março de 2026, e projetos protocolados dentro do período de transição podem seguir a edição de 2015. Projeto que ainda não foi protocolado deve ser tratado como projeto na norma nova.
O que é o Nível de Proteção (NP) e por que substituiu a "classe de SPDA"?+
É a nova designação da classificação do sistema de proteção, com correspondência direta às classes anteriores e os mesmos valores de requisito. O que mudou não foi a tabela, foi o caminho até ela: o nível exigido sai da análise de risco da estrutura (Parte 2) recalculada com o novo índice Ng.
A malha de captação de 20x20m ainda é aceita?+
Sim, no nível de proteção menos exigente, como já era antes. Os valores de malha por nível não mudaram, de 5x5m no nível mais exigente a 20x20m no menos exigente. O que pode mudar é o nível aplicável à estrutura depois de refeita a análise de risco, e aí a malha precisa ficar mais densa.
O aterramento do SPDA pode ser um sistema separado do aterramento da instalação?+
Não. A integração com o aterramento funcional da instalação passa a ser mandatória, e o eletrodo do SPDA deve compor a equipotencialização principal. Manter malhas separadas cria diferença de potencial entre sistemas, um problema sério em instalações de média tensão com equipamento eletrônico sensível.
Ainda preciso medir a resistência de aterramento na inspeção?+
A norma diz de forma expressa que a medição de resistência não é necessária para verificar a eficácia do SPDA. A verificação passa a ser de continuidade elétrica, com procedimentos de ensaio próprios. Medir resistência continua útil para outras finalidades de projeto, mas não é mais o que comprova a eficácia do sistema.
O relé de arco faz parte do SPDA?+
Não. O SPDA protege contra descargas atmosféricas externas; o relé de proteção contra arco interno protege contra falhas internas do painel (curto-circuito, falha de isolação). São camadas complementares de um mesmo projeto de continuidade operacional.
Trifásica Elétrica distribuye materiales de media tensión en todo Brasil.
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