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NBR 14039 em revisão: o que muda para quem projeta média tensão em 2026

03/09/2026
NBR 14039 em revisão: o que muda para quem projeta média tensão em 2026

A revisão da ABNT NBR 14039 está em andamento desde 2019 e tem publicação prevista para o segundo semestre de 2026. Ela alinha a norma brasileira à IEC 61936-1:2021, adota a terminologia internacional de aterramento em média tensão, incorpora o ensaio VLF em cabos, revisa o dimensionamento de transformadores de corrente e amplia as exigências de proteção onde existe geração distribuída. Até o fechamento deste texto, em 3 de setembro de 2026, a edição em vigor continua sendo a ABNT NBR 14039:2021.

Qual versão da NBR 14039 vale hoje?

A edição em vigor é a ABNT NBR 14039:2021, que estabelece os requisitos de projeto, execução e manutenção de instalações elétricas de 1,0 kV a 36,2 kV. Enquanto a nova edição não for publicada pela ABNT, nada é revogado: projeto entregue hoje é avaliado pela versão de 2021, e é essa a edição que deve constar no memorial descritivo.

A confusão aparece porque a revisão já circula em apresentações técnicas e em material de fornecedor. Andamento de revisão não tem força normativa. O que obriga é o texto publicado, disponível no catálogo da ABNT.

Por que a norma está em revisão desde 2019?

O grupo de trabalho criado em 2019 começou pela verificação das tabelas de correntes suportáveis pelos cabos e encontrou valores superdimensionados incorretos. Junto disso veio a atualização das denominações de aterramento. Essas duas correções foram urgentes o bastante para virar uma emenda em 2021, que a ABNT consolidou na edição atual da norma. O restante do trabalho seguiu, e é ele que está fechando agora.

O relato do andamento vem de reportagem de O Setor Elétrico publicada em 7 de outubro de 2025, com integrantes da Comissão de Estudos responsável pela revisão.

A norma vai mudar de estrutura?

Não. Segundo o engenheiro eletricista Alexandre Pereira, integrante do grupo de trabalho, o comitê chegou a desenvolver em 2020 um texto mais alinhado à estrutura da IEC 61936, mas houve redirecionamento para preservar a organização da NBR 14039 de 2003 e incorporar apenas os trechos necessários da norma internacional. A justificativa foi manter as particularidades do sistema elétrico brasileiro.

Para quem projeta, isso tem uma consequência prática boa: as seções continuam onde estão. O trabalho de adaptação é pontual, por conceito atualizado, e não uma releitura da norma inteira.

O que muda no aterramento de média tensão?

As denominações usadas internacionalmente para designar os tipos de aterramento em MT foram incorporadas à revisão, tornando a NBR 14039 compatível com as definições e a terminologia da IEC 61936-1:2021. Quem explica é Marcos Rogério, engenheiro eletricista e secretário da Comissão de Estudos.

O impacto direto está na documentação. Memorial de cálculo, diagrama unifilar e laudo de conformidade passam a usar a nomenclatura nova. Projeto antigo com a terminologia velha não fica errado, mas gera ruído em análise de concessionária e em auditoria de terceiro, principalmente em obra com fornecedor ou cliente estrangeiro.

Como ficam os ensaios em cabos de média tensão?

A revisão incorpora o método VLF (Very Low Frequency), que aplica uma frequência muito abaixo da industrial para detectar falhas de isolamento. É uma técnica mais segura e mais moderna que os procedimentos que dominavam o comissionamento na década passada.

O tema do cabo não para no ensaio. Para João José Alves de Paula, engenheiro eletricista e membro da comissão desde 2019, o dimensionamento da seção do condutor é a etapa mais complexa da instalação, e vem depois de decidir material do condutor, isolação, cobertura, blindagem e eventual armação metálica. Ele alerta para o uso de tabela e software sem entender o cálculo por trás, porque entrada incorreta produz resultado incorreto sem avisar.

Boa parte do cálculo aplicado hoje se apoia na série IEC 60287, complementada pela ABNT NBR 11301, de 1990, que já apresenta omissões frente às normas IEC.

O que muda no dimensionamento dos transformadores de corrente?

Este é o ponto que mais mexe com projeto de proteção. Com relés digitais e IEDs, a carga no secundário dos TCs ficou muito menor do que era há vinte anos, quando predominavam relés eletromecânicos. A revisão atualiza as orientações de uso dos TCs diante dessa realidade.

Danielle Menezes, engenheira sênior da Light e membro da comissão desde fevereiro de 2024, aponta duas contribuições vindas da experiência das distribuidoras: incluir a injeção de corrente pelo primário dos TCs de proteção no comissionamento, para verificar relação, fechamento, leitura e atuação pelo neutro; e abandonar o critério de 20xIn como regra de bolso para dimensionar TC de proteção, calculando a tensão de saturação em vez de repetir o número.

Vale entender o tamanho do risco: TC que satura em condição de falta compromete a atuação do relé justamente no evento para o qual o sistema de proteção existe.

E nas instalações com geração distribuída?

O paralelismo da geração distribuída com o sistema interligado cresceu rápido, e a revisão atualiza as prescrições sobre os tipos de proteção necessários para garantir operação segura tanto do lado da concessionária quanto do usuário. A comissão tratou o assunto como frente própria.

Na prática, quem tem geração atrás do medidor, cogeração ou usina conectada em média tensão deve rever com o projetista as funções de proteção no ponto de conexão antes de fechar a compra do painel e dos relés.

O que fazer com projeto em andamento?

  • Projeto que entra em obra ainda em 2026: segue pela ABNT NBR 14039:2021. Registre a edição usada no memorial, porque isso protege o projetista em análise futura.
  • Ativo de vida longa: subestação em construção, retrofit contratado e cabine nova pedem um mapeamento dos pontos em revisão antes da compra, com destaque para aterramento e TCs de proteção.
  • Especificação de equipamento: dar preferência ao que já atende a IEC 61936-1:2021 reduz retrabalho quando a edição nova entrar em vigor.
  • Comissionamento: incluir ensaio VLF nos cabos e injeção primária nos TCs mesmo antes da obrigatoriedade. Custa pouco perto de uma falha de proteção.
  • Acompanhamento: a Consulta Nacional é a etapa em que a comunidade técnica se manifesta sobre o texto. Quem projeta média tensão deveria ler o projeto de revisão antes de reclamar da norma publicada.

Quando a nova edição é publicada?

O cronograma divulgado pela Comissão de Estudos previa fechar o texto até abril de 2026 e enviá-lo à ABNT para Consulta Nacional, com publicação oficial esperada para outubro de 2026. Depois da publicação existe ainda o período de transição definido pela ABNT.

Prazo de norma escorrega. Trate outubro de 2026 como referência de planejamento, não como data contratual, e confirme o estado da revisão antes de amarrar cronograma de obra a ela.

O que isso muda na hora de comprar o equipamento?

Média tensão é um mercado em que a especificação errada só aparece no comissionamento, quando o equipamento já está pago e a obra já tem data. Por isso a ficha técnica importa tanto quanto o preço.

No catálogo da Trifásica Elétrica, 177 itens declaram conformidade com a NBR 14039 na própria ficha, e os cubículos blindados trazem a referência à IEC 62271-200 (levantamento no nosso catálogo em 3 de setembro de 2026). Essa informação fica visível na página do produto justamente para que o projetista consiga cruzar norma, tensão e corrente antes de pedir a cotação.

Em retrofit a atenção é redobrada, porque a compatibilidade dimensional e os intertravamentos do painel existente costumam pesar mais na decisão do que a tecnologia do disjuntor. Se o seu projeto está nessa faixa de dúvida, nossa engenharia faz a especificação assistida junto com o seu projetista.

Limites deste texto

Este artigo descreve o andamento da revisão a partir de material público, principalmente a reportagem de O Setor Elétrico de outubro de 2025 com integrantes da Comissão de Estudos. Nenhum trecho aqui substitui o texto normativo. O que vale para projeto, execução e manutenção é a edição publicada pela ABNT, e o conteúdo final da revisão só se confirma quando a nova edição sair.

Perguntas frequentes

A NBR 14039 já foi revisada?+

Não. Até 3 de setembro de 2026 a edição em vigor é a ABNT NBR 14039:2021. A revisão está em andamento desde 2019, com publicação prevista para o segundo semestre de 2026.

Por que a IEC 61936-1:2021 aparece na revisão da NBR 14039?+

Porque a revisão incorpora definições e terminologia dessa norma internacional, principalmente as denominações dos tipos de aterramento em média tensão, sem abandonar a estrutura da NBR 14039.

O que é o ensaio VLF em cabos de média tensão?+

É um ensaio que aplica frequência muito abaixo da industrial para detectar falhas de isolamento em cabos. A revisão da NBR 14039 incorpora o método como alternativa mais segura aos procedimentos antigos.

Preciso refazer projetos por causa da revisão?+

Não automaticamente. Projeto entregue hoje é avaliado pela edição de 2021. Vale mapear os pontos em revisão, sobretudo aterramento e dimensionamento de TCs, antes de comprar equipamento de vida longa.

A revisão vai encarecer os projetos de média tensão?+

Segundo Luis Otavio Rosa, representante do IBAPE-SP na comissão, a revisão não influencia diretamente prazo nem custo de implantação, e novos materiais e componentes podem até reduzir custo.

Quando a nova edição entra em vigor?+

Depois da publicação pela ABNT, respeitado o período de transição definido por ela. O cronograma divulgado pela Comissão de Estudos apontava publicação em outubro de 2026.

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